Cartas da Cidadania
De: CelsoFurtado_CEU
Para: DilmaRousseff_PresidBR
Estimada Senhora Presidente (me permita esta forma de saudação, ainda não consegui me acostumar com a que a senhora sugeriu - e nem com a rapidez como foi feita a aceitação dela aí embaixo):
Poderia começar este meu despretensioso contato quase da mesma forma que, nestes dez anos e pouco de governo da estrela - seu e de seu antecessor, também meu conhecido Luis Inácio, vocês tem o hábito de tornar pública: Nunca antes na história desse país, um conjunto de pessoas tão díspares e de competência tão discutível, encasteladas em praticamente toda a máquina executiva da administração pública (ministérios, autarquias, bancos, empresas e fundações públicas) esteve presente, para traçar os rumos deste grande país que é meu, seu, de todo o povo brasileiro.
Para mim, lá se vai quase uma década desde que peguei o trem para as estrelas (sem trocadilhos, claro).
Creia-me, quando digo, por aqui existe uma constelação de brasileiros que merece tal comparação.
Eu, de só menos, pela modéstia que deve caracterizar este paraibano, que motivo de orgulho que não consigo disfarçar, bem sei, ainda goza de bom conceito no seu andar e entre muitos.
Para mim, um pombalense que se viu frente a frente com diferentes gerações de pensadores - da senhora, inclusive, fui professor, quando o tema foi economia, e o dito como um privilégio.
Apesar que - a época sua lá no Rio Grande, no máximo tenha merecido uma nota três pelo conjunto da obra. Credite-se, é verdade, em parte ao fato que um secretário de estado não governa sozinho. Principalmente numa secretaria de fazenda.
Confesso que o faço agora, não sem ter refletido muito com o meu grupo de prosa, aqui onde estou: Noves fora eu mesmo, fazem parte dele o Nilton Santos, o Josué de Castro, Paulo Freire, o Mário Henrique Simonsen, o Roberto Campos, o Nelson Werneck Sodré, o Caio Prado Júnior, o Inácio Rangel - entre outros, para que a senhora veja como tantas correntes podem se encontrar, quando necessário, por um bem maior.
Pelos menos aqui em cima, obviamente.
Sabemos do grande esforço que é tentar o mesmo por aí, onde a terra ainda é plana aos olhos daqueles que só vêem e falam de maneira oportunista. Ouvir? Nem pensar.
Mas a dificuldade é mãe da oportunidade, numa tradução livre do ideograma que os chineses (eles mesmos, estão em todo o lugar, não é mesmo? E com a economia servindo de referência - e de locomotiva para o lado capitalista do planeta), tem. Quem afirmaria, apostando apenas no que via na terra de Mao, tamanha importância nas balanças comerciais de todo o globo...mas voltando, que eles tem para definir o que significa a palavra CRISE. Falada assim, em maiúsculas mesmo, porque é sobre ela que precisamos jogar a sua atenção, pois muito nos aflige.
O que está ocorrendo no Brasil, hoje, é aterrador. Sob qualquer perspectiva, afirma o Darcy Ribeiro, que acabou de se juntar a nós aqui na conversa.
Basta ouvir um pouco mais do que fala o Carlos Lessa ou a Maria da Conceição Tavares ai embaixo, até retirando é claro, um ou outro choramingo mais fortemente "estruturalista" ou "desenvolvimentista", como devem sugerir pares mais próximos de sua área econômica e de planejamento.
Não restará pedra sobre pedra nos próximos vinte, trinta anos, que não seja na forma de pó.
A educação brasileira - que sempre afirmei ser a moeda mais importante para o país (nisto compreendeu quem precisava, desconversou quem não se importava), quando a tinha como leitora ou mesmo ouvinte, não apenas relativa ao ensino da economia, da qual fui professor, mas no seu sentido stricto - do Educare, está sofrendo ataques tão impiedosos e profundos, revestidos de toda a sorte de descalabros, inclusive de "sábios doutores" da pedagogia do inexplicável (Josué de Castro, Paulo Freire e Darcy Ribeiro estão me pedindo para frisar bem isso), como justificativa para a adoção de políticas que vão emburrecer um Brasil, que aos trancos e barrancos, diga-se lá, avançava.
Não vou falar do que o mundo já demonstrava na época da Europa Setentrional (Noruega, Suécia e Finlândia) já naquela época, minha, em termos de considerar a educação um investimento estratégico, nem dos exemplos recentes que estão por aí, como na Coréia (do Sul) e Irlanda, entre outros.
Eles são bem conhecidos e vistos, basta olhar - até na internet, e querer enxergar, que fica fácil.
No que diz respeito a economia, por seguinte, estamos todos surpresos com tal sorte de malfeitos de sua equipe: Nem a carga tributária (a maior do mundo) imposta aos nossos brasileiros e brasileiras - e aos brasileirinhos e brasileirinhas, que já vão herdando as consequências, consegue frear a dívida pública, provocada pelo inchaço sem precedentes na máquina do governo.
O crescimento foi pífio quando outros cresciam o dobro, o triplo. Agora é quase nulo - e os outros continum a crescer a taxas maiores.
As políticas de transferência de renda, antes com seu grau de acerto, se tornaram com o tempo, apenas moeda de troca para um projeto de poder que beira o descaso e o colapso.
Havia gente do calibre de Frei Beto, no início do Fome Zero e no esboço do que seria hoje uma grande cartada sua. Andava de mãos dadas com a Dra. Zilda Arns - também presente na nossa turma.
Foi-se, ele, do governo. Ela, acabou vindo mais cedo do que devia, para junto de nós.
E aquela proposta perdeu-se no rio de promessas e do marketing político deste período - mais bem remunerado para as agências de propaganda do que qualquer outro no passado.
Mesmo os acenos que se fazem agora, como de resgatar o preço justo da energia (a senhora mandou baixar, com ares de quem mandava - mas seu ministro entregou quase R$ 9 bilhões do tesouro nas mãos das empresas, e no mês seguinte já existiu reajuste delas), desonerar a cesta básica de impostos federais (ela subiu depois da sua medida em 14 capitais), ou incentivar a indústria automotiva (que é totalmente insustentável, do ponto de vista do desenvolvimento sustentável, diga-se de passagem), tem dado mostras cabais de desacerto, frente a uma inflação oficial (medida com expurgos de toda a sorte, sabemos bem), que teima em querer se mostrar de forma mais agressiva. O tomate anda custando mais caro do que carne bovina, pode isso?
A infraestrutura, nem me o diga. Tão importante e necessária para qualquer plano estratégico nacional de crescimento - como era de se esperar, em meio a tantos PAC's I/II/III, divulgados e não concluídos, é de doer o coração.
Portos que não são capazes de dar conta de uma supersafra e alterar a balança em nosso favor - veja a confusão que se forma ao escoar a produção de grãos pelo porto de Santos - sem falar que não existem caminhões suficientes (que falta que fazem uns trens de carga neste modal, como deveria ser, não é mesmo?), estradas privatizadas (desculpe, mas é verdade - esse negócio de chamar de concessão é apenas um conforto para seus ouvidos, e nada tem de diferente), que são cuidadas apenas nos trechos dos pedágios estratosféricos: Imagine um sujeito gastando cerca de R$ 50,00 em tarifas para sair de SP e chegar no RJ pela Nova Dutra, ou em MG pela Autopista Fernão Dias. Para ir, para voltar são outros R$ 50. Ou, saindo de S.Paulo e indo para um passeio nas praias do litoral norte pagar de uma só tacada R$ 22,00 (vinte e dois reais) a Ecovias para ir e outros tantos para voltar, é ou não é estratosférico?
Sem falar, convenhamos, que estas concessionárias são formadas pelas empreiteiras que receberam o dinheiro público (e bastante dinheiro, mais do que são pagas em qualquer outro país por km), para reformar estradas, sem garantia de qualidade, para depois passarem a ocupar o caixa de um quase-imposto que temos estabelecido para circular.
A Petrobras, que via-se como a jóia da coroa, estava, na verdade, mergulhada na subadministração.
Perdeu o que tinha, apostando no que poderia ter, com essa história de explorar no pré-sal ou atuar além mar na exploração ou refino (veja que isto me parece até caso de polícia, mas sabemos que em nada dará), acabou não tendo nem um pouco do que estimou conseguir. Ou esta política duvidosa, de valorização do produto nacional, de comprar mais de um tudo por aqui, e pagando mais caro do que se estivesse importando. Perdeu em dois anos em valor de bolsa - na média, praticamente 1/3 do que valia, quem sabe até menos do que em dinheiro vivo, com os investimentos equivocados e fruto da irresponsabilidade de entrega aos compadres.
Seus ministros e uma boa parte de sua equipe não podem acertar, porque quase nada sabem.
E a senhora chega já ao ministério de número 40 (quarenta). Cuidado se faz necessário, até porque essa dezena é de um aliado seu que já anda alçando seu vôo solo, rumo ao pleito do próximo ano.
Dói mais em mim que a senhora saiba de tudo - ao contrário do que pregava o outro, e não tome uma atitude de governante, do que dizê-lo, porque assim o é. Os acertos políticos, que os colocam nos seus lugares, nada mais são do que uma desgraça ambulante e reincidente.
Não deixe o Brasil naufragar, é o que lhe, fervorosamente, lhe pedimos.
Mesmo que, para isso, seja necessário mudar mais do mesmo, que pouco ou nada vale, e colocar no lugar quem valha a pena. Para isso se confere mandato a um(a) presidente(a), não é mesmo?
Por aqui vou ficando, torcendo pra que até 2014 se ponha no lugar um pouco mais do valor que inexiste agora. Votos que lhe desejam todos nós, por aqui.
Estaremos sempre disponíveis, para o que precisar.
Basta nos contatar em qualquer boa biblioteca.
Desejo-lhe boa sorte, e com um abraço fraterno me despeço,
Cordialmente,
CelsoFurtado_CEU

