quinta-feira, 15 de maio de 2008

Governo cria fundo soberano na contramão de outros países

Citados pelo ministro Guido Mantega - até para justificar a iniciativa, mais pessoal do que do governo, de criar um Fundo Soberano, o exemplo de outros países - como o Chile , escondeu uma realidade : Nele, como nos outros casos, tal "cofrinho", como foi chamado pelo próprio ministro na apresentação para a imprensa, é destinado a receber recursos oriundos principalmente de seus superávits e, via de regra, são aplicados e geridos internacionalmente de maneira a proporcionar o crescimento de uma salvaguarda adicional para enfrentar períodos de turbulência econômica.
O do Brasil - ao contrário, tem como objetivo primordial - anunciado pelo próprio ministro, o fortalecimento de instrumentos de crédito destinados a internacionalização de empresas brasileiras.
Em outras palavras, será mais um "fundo financiador de iniciativas" e não necessáriamente um fundo de proteção contra as flutuações econômicas negativas, decorrentes da instabilidade dos múltiplos cenários globais que possam vir, de alguma maneira, a afetar o desempenho positivo e os resultados obtidos na balança comercial brasileira.
Neste caso, ao financiar as empresas para a expansão de sua pretensa competitividade internacional, mesmo com todos os controles e salvaguardas que possam ser praticadas, seria muito difícil que este fundo garantidor dispusesse da liquidez de ativos, necessária em momentos cruciais do mercado para garantir uma certa estabilidade.
Sem falar ainda que, independente do fato de já existirem instrumentos mais consolidados de crédito financeiro e comercial em nível internacional, a possibilidade de ingerência política do governo e a criação de mecanismos, digamos, "facilitadores" da obtenção dos tais recursos disponíveis por determinadas empresas (ou isto não ocorre?), poderia levar a iniciativa a um desvio de finalidade.
Se recursos de fundos existentes, administrados por aqui e garantidos pelo governo - como o próprio FGTS, já deram - e continuam a dar, sinais de que podem capilarizar-se em direções pré-determinadas, mesmo sob forte supervisão e com instrumentos de controle institucionais, o mesmo poderia, com certeza, ocorrer com os recursos existentes no Fundo Soberano, a se confirmar o seu propósito.
Ou alguém garante que não?

Catástrofes da Ásia nos mostram duas realidades

A primeira - o ciclone que devastou Mianmar, antiga Birmânia, abriu espaço na mídia internacional para reafirmar o estado de exceção em que vive o país.
No país governado por uma junta militar , equipes de resgate foram impedidas de atuar no auxílio humanitário aos quase um milhão de atingidos. Além disso, os poucos carregamentos de alimentos e medicamentos que conseguem ultrapassar os bloqueios ditatoriais e vergonhosos impostos por seus governantes, acabam sendo confiscados e desviados de sua finalidade principal.
Diante de um mundo estarrecido, seria muito apropriado que a ONU, através dos instrumentos diplomáticos e legais possíveis, autorizasse neste momento algum tipo de intervenção e forçasse o país a receber a ajuda humanitária tão necessária para o quadro, já que tal bloqueio de assistência as vítimas civis deve constituir, no mínimo, um claro atentado genocida - um verdadeiro crime contra a humanidade.
Até por ser um dos países mais pobres do continente, sem grandes riquezas naturais exploratórias, com uma população civil pobre e incapaz de reagir em tal situação, a ação em Mianmar seria, desde do que poderia ser julgado um princípio intervencionista na soberania de um estado independente, mais justificada para o mundo do que, por exemplo, o que ocorreu por ocasião da invasão do Iraque.
Já na China - país sede das olimpíadas deste ano, que foi sacudida por um terremoto devastador de 7.4 graus na escala Richter esta semana, e já contabiliza um número de mortos superior a 19 mil pessoas - como informam as agências de notícias internacionais, com centenas de milhares desabrigadas em algumas províncias da região do tremor, ao contrário, houve acolhida imediata da ajuda internacional oferecida ao país, seguida de uma ação imediata das autoridades na tentativa de auxiliar a população das áreas mais afetadas e prestar socorro as vítimas do abalo.
Isto num país onde é reconhecidamente difícil tratar com abertura e transparência as suas questões críticas internas, como demonstrado em situações anteriores onde o governo, se não dificultou, pelo menos atuou com pouca determinação e engajamento (vide epidemia da Gripe Aviária - SARS, por exemplo).
Estes são dois extremos de ação política, e dão a medida, clara, de como a liberdade política que gozamos por aqui tem que ser mais valorizada e respeitada.
Vamos torcer para que em Mianmar, apesar de seus governantes, a população consiga receber a ajuda urgente de que precisa.
E que na China - antes sob os holofotes do mundo principalmente em função das olimpíadas, este novo posicionamento seja o preâmbulo de novos tempos.
Sem retorno ao passado.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

O BBB- brasileiro: Grau de investimento, e daí?

Não se trata - como a princípio pode parecer pelo título, de desconsiderar que a manutenção de uma política econômica sem sobressaltos, tenha levado o Brasil a atingir, segundo a agência de risco Standard & Poors, a classificação internacional BBB-, ou seja, de entrada no seleto clube de países confiáveis para receber investimentos internacionais.
É certo que, grau de investimento é algo como a implantação de um sistema de qualidade: só permanece enquanto a prática reafirma a teoria.
Para o governo, ávido pela celebração e comemoração de alguma notícia que proporcione um ânimo mais sincero do que o provocado pelo PAC - Plano de Aceleração do Crescimento, já falado por aqui, que em princípio é mais teoria do que prática, o anúncio teve sabor de vitória.
O que não se fala, entretanto, é que da mesma forma em que ele decidiu eleger o PAC como instrumento antecipado da campanha presidencial de 2010, em detrimento de investir com mais afinco no desencalhe das reformas estruturantes que o país tanto precisa (tributária, trabalhista, previdenciária, política, etc.), o grau de investimento alcançado será proporcional a capacidade de se enfrentar, com maestria, questões que se colocam a prova todo o momento, como a alta dos alimentos e dos combustíveis, o custo elevado da matriz energética atual (inclusive o ambiental), a confiança autêntica dos investidores de longo prazo que desejamos (e não apenas dos oportunistas - que não têm um compromisso real com o crescimento e desenvolvimento do país) e, principalmente, o controle mais coerente da dívida pública, dos custos da sua administração e a gestão "oportunista" da máquina estatal.
Tal como uma empresa gigante - que é, o Brasil precisaria contar agora com gestores a altura de suas potencialidades.
Exatamente o que parece ser o nosso calcanhar de aquiles.
E sem isso, me perdoem, não há bonança que segure uma próxima tempestade.
Que, em alguns casos - como o jogo recente do Flamengo pela vaga na Libertadores, pode vir do excesso de confiança.
E da falta de competência em aproveitar a motivação de uma vitória recente.

Caso Isabela Nardoni: Uma reflexão sobre a violência

Em clima de grande comoção nacional - principalmente em decorrência da semana das mães, as investigações sobre o caso que choca o Brasil avançaram, da denúncia feita pelo MP através do promotor do caso, fundada em laudos técnicos e depoimentos colhidos, até a decretação da prisão por um juiz de SP.
As informações divulgadas pela mídia até aqui, dão conta de uma série de novos eventos, até então desconhecidos do público, e que consolidam cada vez mais fortemente a hipótese provável de que a menina tenha sido realmente assassinada por seu pai e sua madrasta.
Repercute o caso, inclusive entre o público infantil, motivando que psiquiatras e psicólogos o coloquem como objeto de estudo, para o que, em palavras mais simples, seria classificado como "ruptura do estágio da fantasia de acolhimento familiar", que em grande parte da infância é o que orienta a relação entre pais e filhos pequenos.
Independente do que dizem, é quase certo afirmar que o caso da menina Isabela Nardoni reacende a importante questão: o quanto estamos seguros?
Na cidade, na rua, na escola, entre amigos, na família.
Não bastasse a sensação de angústia e medo que enfrentamos com a escalada da violência urbana, afloram à partir de agora situações de conflitos - principalmente de relacionamento, que acabam por consolidar um tristeza, simbólica para muitos, da qual é praticamente impossível fugir.
Precisamos refletir com profundidade até sobre o que não nos parece possível.
E banir de nós a essência de uma violência, animal e sonolenta, sobre a qual, sem perceber, acabamos vez ou outra a nos debruçar.