De: @SobralPinto_Ceu
Para: @BrenoGuimarães_JustSP
Exmo. Dr. Desembargador Paulista,
Quem lhe escreve agora estas poucas - porém decididas linhas, sou eu, um humilde representante dos trabalhadores da justiça que já caminhou por este Brasil.
Sei que teimam a todo instante, me atribuir títulos superlativos por aí e no mundo - principalmente na seara do direito, mas onde estou, também sei, não há valia outra que não a retidão de caráter e a simplicidade com a qual busquei usufruir dos anos em que estive por aí.
Muitos que me abordam, repetem inclusive as reverências as quais nunca dei muita atenção: A bem da verdade, é quase sempre muito triste a chegada de novatos (aqui, que seja bem compreendido), pois não conseguem entender - ou aceitar muito bem o fato de que postos ocupados em cortes de justiça, sejam eles de instâncias primeiras ou das superiores - onde as decisões, por últimas, exigem muito da responsabilidade e do espírito puro da justiça, não significam autorização para o livre caminhar nos jardins da paz do espírito.
Asseguro: Lugar mais belo não há!
Se bem que sinto falta, ocasionalmente, da minha Barbacena querida, pois o que dizem por lá também é uma verdade: Um mineiro pode sair de Minas, mas Minas nunca sai do coração do mineiro.
Talvez tenha sido essa minha característica, esta "mineirês" (meus compadres Carlos Drummond de Andrade - que é mineiro como eu, e Graciliano Ramos - com sua têmpera de bom alagoano, tem lá suas pequenas divergências sobre isso), que me mantenha longe das discussões que, vejo bem daqui, continuam a se criar em nome do que, dizem, ser a justiça.
Sabemos, tanto pelos estudos que aprofundam o conhecimento sobre o nascer das leis, como pela prática de nossa vida, dedicada a busca do equilíbrio entre a natureza humana e a necessidade de viver em sociedade, que toda decisão se reveste de grande risco, não vai agradar a todos.
Ora, pois, esta é a regra do jogo desde a criação do mundo: Quando Deus, em sua infinita sabedoria e competência nos criou, a sua imagem e semelhança (o que agora, pela proximidade Dele, não estou bem certo se devo comentar), com o livre arbítrio - liberdade para acordar e discordar do que seja, nos colocou num plano que é motivo de controvérsia e ciúmes até entre os anjos (novamente, pela proximidade, não seguirei comentando).
Dito assim, tem sido com grande desconforto e uma grande dose de tristeza que vemos daqui o quanto relegamos a nossa divindade aí embaixo, principalmente numa época em que, diz-se, estamos tão evoluídos no planeta. Pronto: Agora me vejo tendo que acalmar aqui ao lado o grande Carlos (Charles Darwin para os não-íntimos), que sente falta de Galápagos e da pureza da evolução que viu nos outros animais.
Mas, perdoe-me o divagar momentâneo, como dizia, me assusto ainda com a capacidade que as pessoas têm de matar a inocência e perder a capacidade de se indignar. As vezes, de maneira quase que complementar.
Foi o que sentimos aqui, meu caro Dr. Breno Guimarães, quando naquele dia 10 de março passado, aí na Avenida Paulista em Sampa (passou o Adoniram Barbosa por aqui, não pude resistir), o jovem e humilde David Sousa, lavador de janelas, de bicicleta, cruzou no caminho do trabalho, vindo de casa (que fica bem longe, diga-se), com o também jovem Alex Siwek, estudante de psicologia (Sigmund não quer comentar sobre este rapaz, mesmo com minha insistência), que voltava de uma balada, onde havia consumido várias doses de bebida alcoólica. Dirigindo o seu carro, em alta velocidade, numa área de ciclistas demarcada por cones, sob efeito de bebida (além da imprudência e do desprezo pelas regras de convivência civilizada), ele atropelou David Sousa e na batida, arrancou o seu braço e, com este preso ao para-brisas do veículo, evadiu-se do local, sem parar ou prestar qualquer socorro. Estava acompanhado de um carona, deixou-o em casa e - ato seguinte, encostou o carro próximo a um córrego, retirou o braço preso ao para-brisas e o jogou num valão!
Dito assim, não fosse a realidade, pareceria a qualquer um a cena de um filme de terror.
Mas aconteceu, no início da manhã, na maior metrópole do Brasil, a vista de dezenas de testemunhas.
Pois bem, Alex Siwek, perpetrador e réu confesso, acabou preso e dormia a 12 dias na prisão.
Até ontem, quando, para minha surpresa pessoal, foi solto por uma decisão sua.
Saiu da cela que ocupava a pouquíssimos dias, no Presídio de Tremembé, e foi de carona no esportivo mercedes benz (grifo meu) de seus defensores para casa.
O jovem David Sousa, ao contrário, continua internado no Hospital das Clínicas - teve seu braço arrancado, e, vemos que, pelo andar da carruagem solidária que ainda passa aí embaixo (Graças a Deus!), está contando com o apoio de uma legião de pessoas, desconhecidas dele, para que tenha - após sua alta médica, a possibilidade de receber a doação de uma prótese, e consiga ingressar num processo de reabilitação que mitigue a situação traumática que viveu - e que o acompanhará para o resto da sua vida. Para ele, segundo os médicos, ainda não há previsão de soltura - perdão, de alta.
Mas, venhamos e convenhamos - e mesmo o Sr. há de concordar, internação hospitalar acaba sendo uma espécie de prisão, para quem, até bem poucos dias, pedalava sua bicicleta a caminho do trabalho. Como fazia David Sousa.
Não tenho a pretensão, nunca a tive, de estar certo em todas as minhas colocações.
Mas, tenho certeza, nunca em toda a minha vida, dedicada aos princípios da justiça, quis optar por uma leitura da Lei, que por reducionista, tornaria nebuloso e injusto o seu entendimento e a consequente aplicação de seus pressupostos a bem do coletivo.
Até apoio que, na magistratura, decisões sobre a Lei não tem que seguir o que pensa a opinião pública.
Mas vejo, com pesar, que a oportunidade de fazer justiça, ao que parece, se encontra mais ao sabor da vaidade de decisões extemporâneas, das seguidas leituras e releituras da Lei, com seus acórdãos, jurisprudências e toda a sorte de recursos, quase infindos, do que aquela visão, mais correta - por simples e justa, que é a espinha-dorsal para todo o ordenamento jurídico do seguir.
Me perdoe se, ao escrever estas poucas linhas, saio do meu estado habitual, de apenas espectador, e não o faço para colocar-me no centro das atenções. Isso deixo agora aos vivos, como o senhor.
Conselho bom, diz-se, é conselho pouco.
Quando decidimos de forma errada, temos que ter a ousadia de corrigir o próprio erro.
Especialmente, quando a decisão deixa a sensação de impunidade como algo fortalecido.
Imagine o efeito que poderá ter em mentes jovens, tão descrentes de bons exemplos, um caso tão emblemático como este, onde desde o início o que esta certo aos olhos, certo está.
E o errado, também assim.
Por fim, quero apenas dizer que existe um grande espaço para o abandono da soberba, do decidir ao sabor da vaidade.
Me despeço, e aproveito para enviar-lhe a saudação do também amigo - este carioca, Antonio Evaristo de Morais, pois nosso grupo aqui adora uma boa prosa.
Com respeito,
@SobralPinto_Ceu


Nenhum comentário:
Postar um comentário