Meu Legado.
Será diferente do que recebi,
porque cresci com o mundo e o mundo,
ao que parece,
acabou crescendo sem mim.
Nasci de Maria, José de Maria eu fui.
Em berço humilde, carioca, brasileiro - mas fincado no ouro maior,
de um planeta azul - naqueles tempos, segundo os
astronautas inda era -
que me ofereceu casa, comida e água,
e guarida como essa, não recusei - que não sou besta,
vi do alto, desci num raio de luz e me aconcheguei,
aqui mesmo:
curioso planeta azul, quase todo d'água e
chamado de Terra.
Meu legado...
Vem lá da infância, de dias bons e de outros nem tanto,
mas colo e carinho não faltaram, nisso ponham fé:
até o chinelo assoviando no ar e estalando onde sento -
se fecho os olhos ainda sinto - não é que é?
Até chinelada teve razão de ser, nunca foi por querência.
Haveria Maria de querer ao seus filhos, sem razão de ser?
Melhorou a postura - p'ra vida, que humildade mesmo
em casa, nunca deixou curvar.
"Sou palmeira verde, vergo mas num quebro".
E pronto.
Tão pronto como as belezuras dos esteves que vieram depois d'eu.
Teve tempo de André, de Ana e de Alberto.
Teve tempo de família, e até hoje há perdidas por aí, nesse
mundão de meu Deus, lembranças de quem duvidava.
Maria e sua cria?
- Hoje tudo crescido e de bem, quem diria :
Não se confudiu dinheiro com educação,
com ensinamento da vida.
Chuva e sol é p'ra todo o mundo,
que nem a alegria e tristeza.
Lamentar, p'ra que serve então?
Ontem tava mais ou menos, hoje tá bão.
E o amanhã?
A Deus pertencia, nesse meu legado.
De dia em dia, fez um mês.
De mês em mês, fez um ano.
E de ano e ano, fêz-se o José da Maria.
E o seu legado.
Passou pela vida olhando no horizonte - êita menino sonhador!
Sorriu com um pouquinho de tudo que recebeu:
o primeiro velocípede, a lambreta (com som de motor) e a bicicleta
da dindinha Odete comprovaram:
Ia tirar carteira esse menino, e quando fôsse
de maior teria o seu carro.
Mas carro não é legado - é só carro.
O bom da vida foi ter empurrado e pedalado.
Foi ter corrido e saltado.
Foi ter...crescido?
É, crescer fez parte do meu legado.
E é bom que fique anotado: eu cresci!
Algumas vezes mais, outras menos.
Se bem que a verdade é uma só - em altura ser o primeiro
não fêz vantagem nenhuma: Olha só meus irmãos,
quem acabou pequeno fui eu mesmo.
Mas pequeno ou grande, não importava o tamanho.
Até porque altura não é legado!
Desci de ski-papelão os gramados da Quinta,
nadei em Ramos sem ter piscinão.
E andava - como andava, pra nadar lá.
Não foi só de mar, meu legado teve rio também - além do de Janeiro,
lá pros lados de suruí e de magé,
onde vemaguete de tio Raimundo era sinônimo de estrada,
viagem, diversão. E o farnel da Tia Mercedes - huum, delícia só!
Tinha saída de férias pro Méier da Tia Judith,
tinha passeio na fazenda de Santa Cruz e depois em Angra na casa do didinho Paulo César e
da comida gostosa da Tia Olívia.
Teve festa da Penha e Shangai, Tívoli e Circo do Orlando Orfei,
barca pra Paquetá e pra São Francisco - que aproveito pra confirmar :
Tem a melhor vista do Rio!
Teve matinê no Olaria e poeirinha no São Geraldo.
Mas o estudo nunca faltou: Da Edmundo Lins, passando pelo Anderson.
E de lá pro mundo.
Escola pública que fez vocação para os livros, inda tinha.
Engraçado: Da Edmundo pro mundo.
É, já estava escrito.
Meu legado teve infância no Centro e em Ramos, adolescência no Centro e na Tijuca.
Meu legado teve calça general Custer e camisa de batik, boca de sino e
cavalo-de-aço,
escutou Elvis, Jonhy Mathis, Deep Purple, Reinascense, Bossa Nova, Clube da Esquina,
teve ainda John Denver, Marvin Gaye e Motown, Bob Dylan, Barry White e Ray Charles.
Meu legado teve Cazuza cantando na Mamute e barzinhos - muitos barzinhos, com música
ao vivo. E Renato Russo, Elis e muitos mais.
Até Annie Haslam e America estiveram em meu legado.
E ao vivo!
E teve meninas, adolescentes e mulheres - cada categoria ao seu tempo.
Porque teve namoradas, certo?
Um legado masculino que se preze, se faz com paixões que começam comigo miúdo, inocente
- até de pescoço virado para professoras, como todo bom aluno.
Ou acham que só nos livros vive o interesse dos alunos?
Meu legado teria orgulho de dizer: Foi José com J maiúsculo!
O menino conheceu a paixão e cresceu aprendendo a amar.
Só assim se abre espaço no coração, no entendimento da vida.
E escreveu - muito até, quem sabe um dia não tenha no legado um livro.
De poesia.
Até se esse dia - de virar legado, fosse hoje, o livro eu teria.
Meu legado é feito de partes boas dos esteves que, juntos, transformaram-se
em partes ainda melhores como Anna Luiza, Pedro e Nathalia, pequenos raios-de-sol que iluminaram a minha vida.
Meu legado era criança e cresceu.
E crescendo amadureceu.
E amadurecendo resolveu plantar uma árvore.
Plantou.
E sentiu que havia espaço para plantar coisa maior, tipo... continuidade?
Que atende pelo nome de Aimée, "amada" em francês.
Mas muito, muito mais amada em português mesmo.
Bem brasileiro!
E ao contrário do bom pirata, resolveu não esconder seu maior tesouro,
que amada e devidamente registrada em cartório, vem cultivando com carinho
nestes últimos nove anos de sua vida.
O que falar sobre esta parte chamada Aimée do meu legado,
quando nem todas as palavras juntas - lado a lado, conseguem expressar
o tamanho que ela passou a representar.
É com a perspectiva dessa continuidade, de eternidade - porque não dizer,
que a paixão encontra o amor.
Um amor que redescobre a paixão.
E contraria a versão sobre a histórica aliança café-com-leite,
pelo menos entre os estados,
já que pelo tom da pele ela continua a mesma: Metade branca, metade amorenada.
Não foi São Paulo, neste caso.
Foi o Rio que encontrou Minas.
E vice-versa.
E desse encontro, "K" entre nós e "K" pra vocês, Kézia anda pelo meu legado.
E ainda hoje vejo faíscas,
como quando estava lá em cima, sentado, vendo a terra esfriar e
azular, para que eu pudesse descer.
Meu legado tem muito do Rio, um pouco de BH e de Fortaleza - e um pouquinho
de muitos cantos por onde estive.
Nesse meu Brasilzão. E fora também. América, Europa - tudo pedacinho do mesmo chão,
que se partiu quando o fogo esfriou.
E virou mar.
Meu legado tem muita coisa.
Muitas mais do que eu posso contar.
Tem criança, jovem e adulto.
Mas é só até aqui que eu me lembro.
Pelo menos hoje.
E meu legado acaba ficando,
entre o azul do céu e o calor da terra,
com essas poucas linhas.
Que um domingo como esse,
resolveu contar.
Linhas.
Minhas.
Meu legado,
até aqui,
até agora...
Se amanhã eu acordo, dou um sorriso pro dia,
mas não tenho som prá dizer, escrito pelo menos ficou.
Meu legado.
Meu.
PS.: Escrever sobre o "Meu legado" me inspirou ouvir algumas músicas neste domingo.
Aqui tem algumas, que compartilho com você :
http://www.youtube.com/watch?v=9VGbbTQShrg
http://www.youtube.com/watch?v=U9BA6fFGMjI
http://www.youtube.com/watch?v=ZB63kzEFFAU
http://www.youtube.com/watch?v=Xz-UvQYAmbg
http://www.youtube.com/watch?v=QkhG5tZKJ9c
http://www.youtube.com/watch?v=YM8VoFZqaeI
http://www.youtube.com/watch?v=KnhKcCwZwl8
http://www.youtube.com/watch?v=h61ffFRFmxw
Bom domingo para você também!
domingo, 28 de outubro de 2007
Meu Legado : Reflexão, Poesia e Prosa
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